Mais de 116 milhões de pessoas vivem em apenas 15% do território nacional. É o que mostra o novo estudo Estimativa da População Brasileira Residente no Bioma Mata Atlântica, do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA), publicado em agosto nos Anais da Academia Brasileira de Ciências (ABC).
Segundo o levantamento, as regiões Sudeste e Sul chegam a concentrar até 85% do total de habitantes nos limites da Mata Atlântica. Estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais reúnem grande parte dessas pessoas.
De acordo com a pesquisadora do instituto, Mileide Formigoni, a combinação entre alta densidade populacional e área limitada intensifica a pressão sobre os recursos naturais. “Com mais de 116 milhões de habitantes em uma área relativamente pequena, a Mata Atlântica enfrenta desafios como escassez hídrica e degradação de bacias hidrográficas, fragmentação florestal e vulnerabilidade a eventos climáticos extremos”, explica.
Ainda que o número de moradores seja alto, isso não significa que as pessoas vivam em áreas de floresta. Na verdade, a maior parte da população está concentrada em cidades e áreas urbanizadas situadas dentro dos limites do bioma.
Os dados reforçam que a conservação do bioma está diretamente ligada à qualidade de vida da população brasileira, já que a Mata Atlântica fornece serviços essenciais como abastecimento de água, proteção do solo, regulação climática e polinização.
O estudo também evidencia fortes desigualdades regionais. Cerca de um terço da população que vive na área ocupada pelo bioma está concentrada no estado de São Paulo. O Sudeste reúne mais da metade da população do bioma.
A pesquisa usa como base os dados do Censo Demográfico de 2022 e revisa estimativas anteriores, que variavam de 60% a 72%. A pesquisa utiliza estimativa com método transparente e replicável, permitindo a maior precisão no planejamento de políticas públicas e estratégias de conservação.
Nova metodologia
Um dos principais diferenciais do estudo está na metodologia. O artigo mostra que muitas estimativas amplamente divulgadas ao longo das últimas décadas não detalhavam como os cálculos eram feitos, o que comprometia sua confiabilidade.
Para evitar distorções, a nova pesquisa adotou um critério rigoroso: uso de dados oficiais do Censo 2022; cruzamento com dois limites reconhecidos do bioma (Lei da Mata Atlântica e mapa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE]); e inclusão apenas de municípios com 50% ou mais de seu território dentro do bioma, evitando superestimativas. “Esse procedimento reduz erros comuns, como considerar municípios com presença mínima do bioma como totalmente inseridos na área”, explica o pesquisador do INMA, Sérgio Lucena Mendes.
Ao oferecer uma estimativa atualizada e metodologicamente consistente, o estudo contribui para qualificar o debate sobre conservação e uso sustentável da Mata Atlântica. Os resultados indicam que mais da metade da população brasileira depende diretamente dos serviços ecossistêmicos do bioma, reforçando a necessidade de políticas integradas que observem conservação ambiental, desenvolvimento urbano e adaptação às mudanças climáticas.
Foto: Reprodução/Web















